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Temáticas
Num momento em que a opinião pública
tanto se manifesta sobre aspectos diversos da língua portuguesa
e do seu uso, e em que pouco se ouve o que os linguistas têm a
dizer sobre estes e outros temas, vimos convidá-lo a partilhar
connosco as suas perspectivas, inquietações, perplexidades,
esperanças e votos relativamente a estas temáticas.
1.º dia - Contributos da linguística
para o uso da língua portuguesa
As línguas, antes de andarem por aí, nas bocas do mundo,
estão dentro de nós. É pois de nós que fala
ou deve falar o linguista: aquele que tem a humildade
de não pensar
que sabe tudo.
No mundo de hoje, a imagem que damos
de nós é quase tão
real como a própria realidade. Por isso, vale a pena aos linguistas lutarem
pela sua imagem, devolverem-lhe a beleza original das grandes causas que conduzem à simplicidade
da palavra e à dádiva do saber. Fazerem da sua ciência, como
dizia Bento de Jesus Caraça “um grande capítulo da vida humana
social”.
E a linguística até serve para muita coisa.
Pensemos num problema comum: Ouve-se à boca cheia que os portugueses
não
sabem, ou, pior, que cada vez sabem menos falar e
escrever na sua própria
língua, embora passem a vida a fazê-lo. Ouve-se que a escola,
hoje em dia, não ensina as pessoas a falarem e a escreverem e que
os jovens se encontram mais mal preparados do que antigamente. Ouve-se
que a língua
portuguesa está em crise, que está a empobrecer. Ouve-se
que a língua precisa de ser protegida, que está ser invadida
por palavras e formas de dizer estrangeiras que desvirtuam a sua pureza.
Que têm os linguistas a dizer sobre tudo isto? E os não-linguistas?
O que têm estes a dizer sobre o que os linguistas dizem, fazem ou
não
fazem a propósito disto? Será que a conjuntura actual é tão
diferente das anteriores que conduz a situações linguísticas
nunca antes vividas? O que tem a situação actual de particular?
Como é que o linguista pode contribuir para mudar o estado de coisas?
2.º dia - A língua portuguesa no séc.
XXI: novos usos
As últimas décadas têm sido de vertiginosa mudança.
Palavras e expressões como globalização, glocalização, internet, tecnologias
de informação e comunicação, comunicação
mediada por computador, sms ou e-mail ganharam estatuto
de uso quotidiano. Mas a importância do uso de tais palavras ou
expressões está para além da sua vulgarização
e decorre dos processos transformacionais que têm vindo a reconfigurar
as sociedades humanas. Vivemos, no presente, um momento
de transformação
tecnológica cujas consequências, em termos linguísticos,
apenas são comparáveis à invenção dos
sistemas de escrita e à invenção da imprensa.
A reconfiguração
das formas textuais tradicionais, por exemplo, consequência da digitalização
e informatização
da cultura, do uso paralelo e/ou simultâneo não só de diferentes
modos de significação, mas também de diferentes meios para
a comunicação, mostra-nos quotidianamente que os repertórios
de literacia são hoje muito diferentes do que eram há 20 anos.
Que desafios se colocam aos linguistas no momento de transformação
em que vivemos? Como encaram e lidam com as transformações que
os novos usos da língua provocam na sua aquisição, no seu
desenvolvimento e no seu ensino? Como é ser linguista num momento comparável
aos da invenção da escrita e da imprensa? Que perguntas se colocam
os linguistas a si próprios? Como constroem hoje o seu objecto de estudo?
E os não-linguistas? Como encaram todas estas transformações?
O que esperam do trabalho dos linguistas?
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