ENCONTROS QUINZENAIS DE LINGUÍSTICA SISTÉMICO-FUNCIONAL  

 

Encontro 56º

   

10 de Dezembro de 2009, Quinta-feira, às 17:00 h.

 

Constituência do grupo verbal em nyungwe: o Marcador do Sujeito

 

Sóstenes Rego (FLUL/ILTEC)


Quando se começa a explorar a gramática nyungwe em termos semânticos e funcionais, salta à vista a concentração de informação, sobretudo no grupo verbal (GV), através da sequencialização de morfemas. Outrora concretizadas por verbos, referidas por Halliday (2004: 311, nota) como “serial verb constructions”, tais sequencializações estão patentes em casos como kudzawatola (-dza, 'vir' + -tola, 'buscar'), em "kuti abwere kudzawatola" - 'para lhes virem buscar' -, adzatumbize (-dza, 'vir' + -tumbiza, 'engrandecer'), em "kuti adzatumbize bonalo" - 'para engrandecerem a cerimónia' -, kambakondzedweratu (-mba, 'acostumar' + -kondza, 'fazer'), em "komwe kambakondzedweratu kuwulowulo" - 'que é feita logo na hora' -, e Ataterepo (-ti, 'fazer' + -tene, 'assim'), em "Ataterepo" - 'Feito assim'.
O que mais chama a atenção na constituência da forma verbal é a sua alta gramaticalização quer em Tempo/Aspecto, quer em Polaridade, quer em Modo, quer ainda em Voz, por exemplo (vd. Martins, 1991: 61-101; Botne, 2003). A natureza destes morfemas difere conforme a sua posição face à raiz verbal: em posição de pré-modificação ancoram o processo no Tempo/Aspecto, no espaço; em posição pós-modificação, eles estendem o significado da raiz.
Três fundamentos podem ser adiantados para que estes morfemas sejam inclusos nas formas verbais: a) isolados não produzem qualquer significado, b) completam o sentido do verbo, c) desempenham funções semânticas e léxico-gramaticais no verbo. Nesta apresentação é dada particular atenção às funções desempenhadas por um morfema que normalmente inicia a forma verbal na oração, o Marcador do Sujeito (MS). Ao contrário dos outros morfemas, os efeitos do MS espelham-se e manifestam-se ao longo de todo o fraseado, exercendo funções de a) marcação classe nominal, b) pessoa e c) número: "CInyungwe ndico CIrewedwe CIa anyungwe" 'O nyungwe é a língua dos anyungwe'. Refira-se que o MS a) é um morfema obrigatório em orações maiores, b) faz parte do verbo, c) situa-se em posição inicial, d) varia consoante a pessoa, o número e a classe nominal do Sujeito a que se refere, e) é um co-referente do Sujeito, f) é um morfema de concordância, g) o seu papel reflecte-se em toda a oração. Por tudo isto, em nyungwe, o MS aparenta pertencer ao Modo verbal.


Sóstenes
Rego é doutorando em Linguística Geral da FLUL, bolseiro da FCT e investigador do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC). Tem trabalhado na descrição da língua nyungwe e na pesquisa acerca das outras línguas da mesma família. No seu doutoramento está a estudar a gramática da interpessoalidade do nyungwe a fim de traçar o perfil interpessoal desta língua, tendo como quadro teórico a Linguística Sistémico-Funcional.