ENCONTROS QUINZENAIS DE LINGUÍSTICA SISTÉMICO-FUNCIONAL  

 

Encontro 62º

   

24 de Junho de 2010, Quinta-feira, às 17:00 h.

 

Formas de tratamento na língua portuguesa

 

Rita Faria

(FCH-UCP, Portugal)


O tratamento linguístico em português europeu apresenta uma complexidade notória. A dificuldade e incerteza que muitas vezes os falantes sentem face à escolha da forma de tratamento adequada às diferentes situações sociais são indicadoras de um sistema de tratamento linguístico intrincado, que admite pronomes, sujeitos nominais e possivelmente formas verbais pro-drop como formas de tratamento. A complexidade deste sistema é agravada pelo aparecimento da forma gramaticalizada você e o desaparecimento do pronome de deferência vós, que exigem reflexão sobre os critérios que orientam o uso das formas de tratamento portuguesas.
Esta sessão apresenta como fundamental objectivo iniciar esta reflexão, procurando apontar os factores de mudança que actualmente afectam o uso do tratamento linguístico português e os possíveis critérios que orientam a escolha da forma de tratamento adequada à situação social.
Examinaremos também a distinção binária T/V efectuada por Brown & Gilman (1968), que destrinçam pronomes destinados ao tratamento informal (formas T) de pronomes de tratamento de distância social ou formalidade (formas V). O sistema de tratamento português exibe formas que não se enquadram na designação T nem se subsumem à designação V – parece-nos ser este o caso de você e do pro-drop de terceira pessoa como forma de tratamento. Assim, a proposta de Cook (1997) que, a partir do caso português, estabelece uma divisão tripartida entre T, V e N (formas neutras) afigura-se particularmente profícua. Será igualmente importante reflectir sobre a possibilidade de admitir formas verbais pro-drop, nomeadamente a terceira pessoa pro-drop, como efectivas formas de tratamento da língua portuguesa.
Finalmente, procuraremos explicar a relação entre formas de tratamento linguístico e delicadeza; se se admitir a possibilidade de formas N, será certo que estas últimas não comunicam necessariamente delicadeza, mas antes um comportamento próprio, meramente adequado à situação social, e que, tal como Locher & Watts (2005) esclarecem, é distinto do comportamento linguístico delicado.

******

Rita Faria é assistente na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, onde concluiu recentemente o doutoramento em Linguística Contrastiva, com uma investigação sobre a manifestação linguística de delicadeza em português e em inglês, em que procurou, em particular, aplicar as noções de delicadeza positiva e delicadeza negativa ao português através da comparação com o inglês (tradicionalmente descrita como língua de delicadeza negativa).