Instrução em sala de aula Introdução

A proposta que agora se apresenta tem como objetivo ajudar os professores de português como língua não materna no seu trabalho direto com os alunos em situação de aula.

Trata-se de uma disciplina relativamente nova nas nossas escolas que não está ainda plenamente regulamentada. Não existe formação inicial ou contínua específica para este tipo de ensino, faltam materiais de apoio para os professores e os que existem estão dispersos. Além do que, em muitos casos, os alunos têm diferentes origens, diferentes línguas maternas, diferentes tempos de permanência em Portugal e diferentes níveis de português, o que, não raramente, torna difícil a constituição de turmas.

Este conjunto de circunstâncias tem óbvio reflexo na atividade dos professores em sala de aula, sendo frequentes as dúvidas sobre o que devem ensinar, que materiais podem e devem utilizar, como avaliar os alunos, etc.

Não se pretende aqui, nem isso caberia no âmbito da nossa atuação, responder a todas estas perguntas. Pretende-se apenas apresentar de forma muito prática atividades que poderão ser utilizadas com diferentes alunos, de diferentes anos e diferentes níveis de português através da utilização de materiais autênticos de fácil acesso.

As atividades serão pontuadas por sugestões que poderão enriquecer o trabalho ou adaptá-lo a alunos particulares. Por exemplo, é muito comum pensar-se em atividades e materiais em termos do nível dos alunos a que se dirigem. Como veremos adiante com a apresentação de sugestões alternativas às atividades apresentadas, uma mesma atividade pode ser adaptada de forma a adequar-se a alunos com conhecimentos de português diferentes ou com idades discrepantes, quer do ponto de vista da atividade significativa a ser realizada, quer do ponto de vista do conteúdo gramatical que poderá ressaltar da atividade. Este é, aliás, outro dos pontos que interessa salientar e que procuramos mostrar com a apresentação de sugestões alternativas: de um mesmo recurso, material ou atividade poderemos fazer sobressair vários aspetos gramaticais relevantes para os alunos. A escolha daquele que interessa em determinado momento caberá ao professor, tendo em conta os alunos com quem trabalha — as suas idades, o seu estádio de aprendizagem de português, o contexto de aprendizagem.

Não apresentamos atividades isoladas, mas sequências de atividades subordinadas a temas gerais e que podem ser utilizadas em várias aulas. Os temas escolhidos foram: o Ambiente, o Futuro e a Orientação Geográfica.

Apesar de serem apresentadas em sequências construídas para ocupar várias aulas, muitas delas podem ser retiradas da sequência e apresentadas aos alunos como atividades autónomas em determinada aula em que o tema esteja a ser tratado. Caberá ao professor a decisão sobre a forma de apresentação da atividade aos alunos e sobre as possíveis adaptações quando retiradas da sequência.

As atividades que a seguir se propõem são desenvolvidas tendo em conta três pressupostos fundamentais:

  • utilização da língua por parte dos alunos em atividades em que se use a língua mas que não sejam exclusivamente linguísticas;
  • interação oral entre alunos (organizados em grupos) e entre alunos e professor;
  • reflexão e sistematização gramatical posterior à realização de atividades.

No que respeita a esta reflexão gramatical, as atividades têm uma ideia básica que lhes subjaz: serem os alunos a descobrir a gramática, a construir o conhecimento da língua; serem os alunos a conceptualizar as regras a partir de exemplos dados e quase sem darem por isso. O papel do professor não está em dar a resposta aos alunos, mas em criar as condições para que sejam os alunos a descobrir as respostas.

Por outro lado, nenhuma das atividades em que se aborda o conhecimento explícito é, à partida, uma atividade de gramática. A gramática surge depois de uma atividade como uma reflexão sobre os aspetos linguísticos que ressaltem, ou que o professor faça ressaltar, da atividade feita.

Cada tarefa é, assim, composta de uma atividade significativa, ou seja, de uma atividade em que os alunos trabalhem a língua do ponto de vista da sua prática e do seu significado e não apenas do ponto de vista da sua forma, seguida de uma atividade de reconhecimento e sistematização de determinado elemento ou estrutura gramatical utilizada. Esse reconhecimento será sempre programado pelo professor por meio de exemplos ou de perguntas que façam surgir a dúvida na mente dos aprendentes. Levantada a dúvida, será depois percorrido o caminho para que os próprios alunos encontrem a resposta para a mesma.

Preconiza-se assim a existência de aulas em que o enfoque não esteja no ensino, mas sim na aprendizagem, ou seja, aulas em que o professor, em vez de transmissor ou difusor de conhecimentos, atue como facilitador das aprendizagens dos alunos, atribuindo-se a estes o «trabalho» de serem curiosos, de procuraram saber, de testarem as suas hipóteses, enfim, de aprenderem.

Instituições participantes: ILTEC Direção-Geral da Educação do Ministério da Educação e Ciência (MEC) Instituição financiadora: Fundação Calouste Gulbenkian