A autonomia não constitui um dado à partida, mas deve ser alcançada através do treino e da consciencialização das suas estratégias, assim como da promoção das condições necessárias para a sua realização. O desenvolvimento da autonomia deve, assim, ser integrado no processo de ensino-aprendizagem desde cedo e constituir-se como objeto de práticas e de reflexão constantes. O aluno, juntamente com o professor e/ou com os seus colegas, vai-se responsabilizando pela sua aprendizagem. Deste modo, deve: aprender a organizar-se, desenvolvendo métodos de estudo (tomar notas, consultar materiais de apoio, elaborar dossiês, etc.); gerir o seu tempo, definindo prioridades na realização das tarefas e respeitando as instruções dadas pelo professor; ser capaz de pensar, testando soluções e fazendo escolhas; procurar e utilizar os materiais disponíveis e/ou fontes diversas de informação; autoavaliar-se. Neste processo, caberá ainda um papel aos alunos portugueses tutores, cuja atuação se centrará não só em atividades de acolhimento, mas também de mediação e facilitação das aprendizagens.
Assim, acompanhar o trabalho autónomo implica a redefinição do papel e das tarefas do professor, o abandono de uma postura transmissiva dos saberes para a criação de condições que favoreçam a aprendizagem do aluno, por si próprio. Para o aluno ser capaz de realizar tarefas de forma autónoma, é necessário adotar certas atitudes, tais como, evitar recorrer ao professor sempre que tiver dúvidas e saber procurar diferentes ajudas.
Compete ao professor criar as condições para que o aluno, progressivamente, crie autonomia na sala de aula, através, por exemplo, da elaboração de guiões de trabalho, da consulta de materiais de apoio, da criação de momentos de trabalho autónomo, da planificação a longo prazo das tarefas, da construção de instrumentos reguladores das aprendizagens, como listas de verificação, fichas de autocorreção, etc. A organização do trabalho autónomo implica a redefinição dos espaços de trabalho e do controlo das aprendizagens, a redistribuição do tempo e a adoção de novas tarefas.
Muitos autores consideram o estudo autónomo parte integral do ensino comunicativo das línguas, pois esta modalidade de trabalho incentiva os alunos a procurar input na língua-alvo, fora da aula, nomeadamente em músicas, filmes, revistas e jornais, televisão, Internet, permitindo-lhes, deste modo, aumentar contactos com a língua e a cultura. Além disso, os alunos aprendem a aprender, gerindo a sua própria aprendizagem e apropriando-se de metodologias pessoais de trabalho, e a utilizar outros espaços para além da sala de aula – o centro de recursos, a sala de computadores, a mediateca ou a casa. Sublinhe-se que os alunos de PLNM estão em situação de imersão linguística, o que potencia a aprendizagem autónoma do português.
Efetivamente, o trabalho autónomo quebra as convenções e a organização tradicional da escola, libertando professores e alunos do constrangimento do ritmo coletivo uniforme para todos, favorecendo novas formas de trabalho mais centradas sobre o aprendente e promotoras da iniciativa e da responsabilidade. Todavia, esta gradual autonomização do aluno só é possível se este for acompanhado em todo o processo pelo professor. Importa, pois, sublinhar que gerar atividades autónomas é um processo que começa dentro da sala de aula, desenvolve-se nesse espaço ou fora dele, e regressa à sala de aula, sempre que necessário, até à sua conclusão. Saliente-se que o trabalho autónomo não se confunde com os tradicionais trabalhos de casa (TPC) – apesar de poder ser feito fora do espaço da aula – no sentido em que o trabalho a realizar autonomamente pelo aluno não decorre necessariamente do trabalho coletivo realizado em sala de aula, nem das aprendizagens que se pretende testar, mas antes do diagnóstico das dificuldades linguístico-comunicativas dos alunos de PLNM que devem ser colmatadas através de um trabalho individual, devidamente preparado e orientado.
Niza (1998) apresenta um modelo de Plano Individual de Trabalho (PIT) que tem como objetivo definir o percurso de cada aluno para a aquisição de determinados conhecimentos ou a realização de um conjunto de tarefas, de forma autónoma. A utilização deste plano individual de trabalho implica que o professor trabalhe em estreita colaboração com o aluno no diagnóstico das suas dificuldades e na definição do seu percurso de aprendizagem, cabendo a este último a gestão e concretização do «projeto». A «discreta disponibilidade» do professor (como lhe chama Niza) constitui o apoio de retaguarda de que o aluno necessita para se lançar à descoberta. São inúmeros os exemplos de atividades que poderão, assim, ser realizadas pelos alunos, autonomamente, dentro e fora da sala de aula, variando as tipologias de exercícios, os recursos e os produtos a apresentar.
Deste modo, construir um ambiente de aprendizagem formativa requer esforço de organização, mas permite valorizar percursos individuais. No caso do ensino do PLNM, importa construir planos individuais de trabalho para cada aluno, onde se devem incluir roteiros semanais – ou com outra duração, mais adequada – do percurso de cada aluno para desenvolvimento do currículo fora da sala de aula, que deverão conter a marcação de trabalho pelo professor, orientações para a sua realização e recolha de sugestões, registos de autoavaliação e de outros trabalhos e responsabilidades assumidas pelo aluno. Será ainda necessário criar tempos de regulação das aprendizagens, proporcionando aos alunos de PLNM tempos de reflexão acerca da sua aprendizagem e tempos de comunicação, permitindo-lhes a apresentação dos seus trabalhos, dando sentido social às suas aprendizagens.
Por estas razões, o plano individual de trabalho deverá ser construído pelo aluno e pelo professor. Apresenta-se, de seguida, um modelo flexível de PIT que os professores poderão adaptar aos seus contextos reais de trabalho, de acordo com as competências a desenvolver, as dificuldades dos alunos e o seu grau de autonomia.
Plano Individual de Trabalho
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